A Minas Gerais dos grandes compositores e instrumentistas não tem sido tão pródiga em intérpretes, sobretudo femininas. Cantora de boa trajetória em palcos, Gisella - que já se apresentou em várias casas de MPB e jazz em Belo Horizonte e estrelou shows no Palácio das Artes - abandonou a carreira há uma dezena de anos para voltar agora. Cheia de disposição, cantando o fino e lançando um CD com repertório de altíssimo nível. "Passagem" reúne craques mineiros da composição, como Fernando Brant, Tavinho Moura, Márcio Borges, Murilo Antunes, Flávio Henrique, Sérgio Santos e Wagner Tiso, a outros agregados competentes. O disco tem canções lindas, que são bem arranjadas e bem interpretadas. Ah, sim: claro que Milton Nascimento também está presente. (Luis Pimentel - JORNAL DO BRASIL - Caderno B - 25.03.2006 - pág. B3)


Critério de seleção prejudica resultado

por Carlos Calado, para o Valor - 16/02/2007 - Cinco anos atrás, a cantora Maria Bethânia convidou as colegas Jussara Silveira, Vânia Abreu, Belô Velloso e Alcione para dividir com ela um grande show, em Salvador, com ingressos a preços populares. "O Brasil é um país de cantoras", comentou a intérprete baiana, na época, observando que o fato de tantas revelações vocais despontarem com freqüência, na música brasileira, justificaria a criação de uma espécie de vitrine regular para exibi-las ao grande público. Quem tem acompanhado a cena musical do país sabe que Bethânia estava coberta de razão. Uma nova safra de cantoras surgidas nos últimos anos prova que a criação nessa área continua em alta, mesmo que essas vozes não freqüentem a programação das rádios nem das TVs, com raras exceções. Entre tantas revelações mais ou menos recentes destacam-se as paulistas Giana Viscardi, Céu e Mariana Aydar, a potiguar (radicada no Rio) Roberta Sá, a mineira Mariana Nunes, a baiana Mariene de Castro ou a cearense Katia Freitas.

Por isso, é um tanto decepcionante notar que, com exceção de Maria Bethânia e Jussara Silveira, as cantoras citadas acima ficaram fora de um livro abrangente como "MPB Mulher". Ou melhor, a foto da baiana Vânia Abreu até pode ser vista entre as incluídas na obra, mas trata-se de um descuido de edição: a imagem aparece ilustrando, erroneamente, o verbete dedicado à paulista Vânia Bastos. OK, logo na introdução, Ricardo Cravo Albin avisa que seu livro "não será - nem poderia ser - uma antologia completa do universo generoso (e amplo) das mulheres da MPB". E informa que a seleção das personagens retratadas ficou subordinada às fotos do precioso arquivo do fotógrafo Mário Luiz Thompson. Em outras palavras, se não foram clicadas por Thompson durante seu namoro de quase quatro décadas com a música brasileira, cantoras de importância ficaram sem um verbete no livro.

Passado o primeiro impacto das belas e expressivas fotos de Thompson, é difícil não questionar essa opção editorial. Logo após o capítulo inicial, focado na pioneira maestrina Chiquinha Gonzaga, a seção dedicada às cantoras do rádio já revela uma ausência bastante incômoda. Carmen Miranda, referência absoluta nesse período, simplesmente não aparece ao lado das imagens de outras divas radiofônicas, como Aracy Cortes, Emilinha Borba e Marlene. Sem verbete próprio, a "pequena notável" recebeu apenas dois parágrafos quase escondidos, no texto de abertura de Cravo Albin.

Assim como as divas Alcione, Jovelina Pérola Negra ou (a mais jovem) Teresa Cristina não aparecem entre as "senhoras do samba" selecionadas para o livro, alguns capítulos sugerem outras ausências. Se Daniela Mercury, Daúde, Virgínia Rodrigues e outras "mulheres da Bahia" ganharam seção própria, plenamente justificada, soa um tanto injusto deixar passar em branco as talentosas mineiras Titane, Marina Machado, Paula Santoro, Alda Rezende, Letícia Coura, Patrícia Lobato e Gisella. Como deixar de fora as cariocas Paula Morelenbaum, Leila Maria, Suely Mesquita e Arícia Mess? Ou ainda as paulistas Maria Rita, Ana Luiza, Izabel Padovani, Luciana Alves, Vanessa Bumagny e Tatiana Parra? Se compositoras como Marina Lima, Ângela Rô Rô ou Suely Costa ganham um capítulo para exibir outra vertente feminina na MPB, por que não destacar também instrumentistas talentosas, como Badi Assad, Paula Faour, Léa Freire ou Simone Soul?

Fosse "MPB Mulher" uma simples antologia de fotos, talvez essas "ausências" não seriam tão sentidas, mas Cravo Albin organizou a obra em verbetes relacionados a fases e estilos musicais, esboçando assim uma espécie de história feminina da MPB. Então por que não incluir outras artistas, mesmo que os verbetes não fossem acompanhados por fotos? Essa alternativa (fica aqui a sugestão para uma próxima edição) enriqueceria a obra e diminuiria as possíveis injustiças. Mapear a trajetória feminina em um universo tão rico como o da música brasileira é, ressalte-se, uma tarefa nada fácil - fato que só valoriza o projeto de um livro como esse.


Eternos sons de Minas

A cantora mineira Gisella começou a carreira atuando em bares de Belo Horizonte, o que lhe deu enorme experiência e a chance de conhecer nomes de ponta da música do seu Estado como Milton Nascimento e Fernando Brant. Por contingência do destino, ficou treze anos afastada da música, retornando com este seu primeiro CD, produzido e arranjado por Wagner Tiso. O repertório é formado por canções de grandes nomes da música mineira e novos valores. O repertório tem clássicos e inéditas. Entre os temas, Contos da Lua Vaga (Beto Guedes/Márcio Borges), Os Cafezais Sem Fim (Wagner Tiso/Fernando Brant), Canto de Desalento (Toninho Horta/Rubens Théo), Capricho da Sorte (Sérgio Santos/Murilo Antunes), Ainda Temos Tempo (Renato Motha/Malluh Praxedes) e Maracanã (Tavinho Moura).  Há uma raridade: ...E a Gente Sonhando, canção de Milton Nascimento que até hoje só havia sido gravada por Alaíde Costa. Em Lira do Bem Querer (Celso Moreira/Murilo Antunes), Gisella faz dueto com Zé Renato. Entre os músicos que a acompanham, Zeca Assumpção (baixo), Robertinho Silva (bateria e percussão), e Victor Biglione (violão), além do próprio Wagner Tiso (piano e acordeon). A voz de Giselle é grave e bem colocada, emprestando ás canções um tom ao mesmo tempo majestoso e envolvente. Belo disco.

JC Online (Recife, PE), 25.03.2006, Toninho Spessoto.
http://jc.uol.com.br/2006/03/25/not_108965.php


Cantora volta à cena

Se, para muitos supersticiosos, o número 13 representa mau agouro, para a cantora Gisella Gonçalves é um marco positivo. Afastada há 13 anos da cena musical, quando decidiu dedicar-se totalmente à carreira executiva na área de comércio exterior, ela trocou a capital mineira, sua terra natal, pela agitada São Paulo. Agora, faz caminho inverso já que está-se despedindo do métier para retornar à carreira musical. Ela volta a Belo Horizonte para realizar, amanhã, às 21 horas, o show de lançamento de seu primeiro CD, Passagem, no Teatro Sesiminas. Gisella sobe ao palco acompanhada dos músicos paulistas Luiz Ribeiro (violão, direção musical e arranjos); Neymar Dias (contrabaixo acústico e viola caipira), Lulinha Alencar (piano e acordeon) e Sérgio Reze (bateria e percussão). ¨São músicos paulistas de um talento fenomenal. Há entre nós um entrosamento muito bom¨, diz a cantora.

A capital mineira é a terceira cidade a receber o show de lançamento de Passagem depois de São Paulo e do Rio de Janeiro (este, na semana passada). Gisella conta que está em um momento de êxtase, principalmente devido à ótima receptividade do trabalho, com shows sempre de casa lotada. A cantora batizou conscientemente o CD de Passagem para marcar o atual momento profissional em que vive. ¨Porque o fato de gravar esse CD representa também uma passagem de um período para outro, de uma fase de vida para outra. Na verdade, Passagem tem vários sentidos para mim. Estou-me despedindo da carreira em escritórios, para voltar aos palcos, inteira¨, conta. Mineira de Belo Horizonte, Gisella começou sua carreira musical bem cedo, na adolescência, como aluna do Conservatório de Música da UFMG e como integrante do Coral Júlia Pardini. Adulta, apresentou-se na noite belo-horizontina acompanhada do violonista Celso Moreira. Chegou a estrear um show no Palácio das Artes, no extinto projeto Fim de Tarde. Integrou, também, a trilha sonora do filme A Dança dos Bonecos, de Helvécio Ratton, sob a direção musical de Nivaldo Ornelas. Desde 1992 que ela não se apresenta, quando cantou com Celso Moreira na extinta casa de jazz Pianíssimo (hoje Máscaras).

Das 13 faixas do disco 8 ¨e meia¨, como brinca a cantora, são inéditas. Entenda-se por esse ¨meia¨ a parceria inédita entre Wagner Tiso e Fernando Brant na faixa Cafezais Sem Fim. ¨Essa música é uma composição antiga do Wagner Tiso, da década de 70, que o Wagner me cedeu e eu pedi ao Fernando Brant para compor a letra. É uma poesia maravilhosa, casou perfeitamente o trabalho de um músico com o outro¨, conta Gisella. A cantora se mostra apreensiva de retornar aos palcos, porém, extremamente feliz. ¨A receptividade tem sido bem legal. Fizemos esse CD com muito carinho, foi bem-tratado. Fiquei por tanto tempo calada que eu tinha muita coisa a dizer. Os shows estão bonitos, sempre de casa cheia, o CD está entre os Top 20 da Tratore, eu acho isso muito gratificante. Toda arte é meio dolorosa, esse trabalho demandou um ano e meio, entre a escolha de repertório até o processo de lançamento, mas acho que agora posso curtir esse momento por inteiro¨.

Diário da Tarde (MG), 28.03.2006, Música, Vanessa de Oliveira