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A passagem de Gisella
por Carlos Calado - Novembro/2005
De vez em quando, a vida nos oferece a oportunidade de trilhar um caminho
inesperado. Algo semelhante aconteceu com Gisella Gonçalves. Treze anos atrás,
ela se afastou da cena musical de Belo Horizonte, onde atuava como cantora, para
seguir uma bem-sucedida carreira de executiva na área de comércio exterior. No
entanto, a paixão pela música foi mais forte: com uma boa dose de coragem e o
incentivo de antigos parceiros do meio musical, ela decidiu retomar a carreira
de cantora, aos 39 anos.
“Estou criando uma nova opção de vida”, diz ela, ao lançar seu primeiro CD, que está longe de soar como um trabalho de estreante. A maturidade musical de Gisella é evidente nesse trabalho, que inclui entre as 13 faixas do disco 12 canções – oito delas inéditas – assinadas por compositores e letristas do primeiro escalão da música mineira. Destacam-se também os arranjos de Wagner Tiso, que responde pela direção musical do disco, ou ainda as presenças de conceituados instrumentistas, como o baterista Robertinho Silva, o baixista Zeca Assumpção e os violonistas Victor Biglione e Celso Moreira, além de um naipe de cordas. Uma produção em alto estilo, com a qual uma cantora iniciante nem sonharia.
O envolvimento de Gisella com a música começou cedo. Aluna do Conservatório de Música da UFMG e integrante do Coral Júlia Pardini, aos 17 anos ela já cantava na noite de Belo Horizonte, sua cidade natal, acompanhada pelo violão de Celso Moreira. Depois que a dupla se tornou atração fixa dos domingos, no extinto bar Beco da Lua, o lugar virou ponto de encontro de fãs da boa música brasileira. Até mesmo Milton Nascimento chegou a freqüentá-lo, quando ainda morava na capital mineira.
Paralelamente aos quase cinco anos em que cantou no Beco da Lua, Gisella também se apresentou em outras casas de MPB e jazz de Belo Horizonte, além de estrelar shows no Palácio das Artes. Em 1986, participou como vocalista da trilha sonora do filme “A Dança dos Bonecos”, de Helvécio Ratton, sob a direção musical de Nivaldo Ornelas. Mas o desejo de obter sua independência econômica levou-a a trocar, aos poucos, a carreira musical pelo mundo corporativo. “O que me encantou nesse novo caminho foi a possibilidade de viajar com freqüência, de conhecer outra gente, outras culturas”, justifica a cantora, que já morou em Buenos Aires e no Rio de Janeiro, além de São Paulo, onde vive hoje.
Gisella não retornou mais aos palcos depois de 1992, quando ainda se apresentou com Celso Moreira na casa de jazz Pianíssimo. “Chegou um momento em que eu tive de optar, porque as duas atividades demandavam muito tempo e cuidado. Na época achei muito difícil continuar trilhando um caminho na música. Hoje penso que me faltou uma certa maturidade para enfrentar as dificuldades dessa área, mas a música nunca deixou de estar presente em mim”, afirma a cantora. Em meados de 2003, ela sentiu que estava na hora de voltar a cantar. “Eu não esperava que a necessidade de expressão por meio da música voltasse tão forte”, admite. Logo começou a planejar a gravação do disco com o amigo e produtor Otávio Bretas. O primeiro passo foi convidar Wagner Tiso para escrever os arranjos.
“Fiz tudo de acordo com o meu gosto pessoal, porque este disco marca a retomada de meu trabalho como cantora depois de um hiato de 13 anos”, diz Gisella, que fez questão de montar o repertório com canções de compositores de Minas, com os quais continuou mantendo contato pessoal. Vários deles, inclusive, apreciavam o trabalho que ela fizera com Celso Moreira no passado. O ineditismo das canções não chegou a ser um pré-requisito para a escolha, mas a cantora admite que valoriza esse aspecto. “O fato de muitas delas serem inéditas me deu mais liberdade para cantá-las do meu jeito, de me mostrar mais”.
Não foi à toa que ela escolheu a inédita “Azul de Passagem” (de Flávio Henrique e Márcio Borges) para primeira faixa. Além de abordar de modo sensível o tema da maturidade, essa canção antecipa o contexto poético de outras faixas. “Sou muito direta, por isso resolvi abrir o disco com ela. Eu me reconheci muito nessa letra”, revela a cantora. Outra canção que remete à temática da maturidade é a inédita “Ainda Temos Tempo” (de Renato Motha e Malluh Praxedes). O arranjo levemente jazzístico ressalta o tom sensual dos versos. “Essa é a única letra do disco feita por uma mulher. Gosto muito dos livros de poesia da Malluh, que são peculiares, de uma beleza muito simples”.
Ao declarar seu gosto pela simplicidade, ou mesmo se definir como uma pessoa direta, Gisella fornece pistas para se captar a essência de seu canto. Não espere ouvir uma cantora exibicionista, como muitas que têm proliferado na música popular internacional das últimas décadas. Com sua voz clara e afinada, ela vai direto ao ponto, sem recorrer a notas desnecessárias ou acrobacias vocais. Madura como cantora, sabe que uma intérprete precisa compreender o que canta, deve estar a serviço tanto dos versos como da melodia.
Gisella não é apenas uma boa intérprete. Mesmo sem ter tido a intenção de fazer um trabalho conceitual, sua sensibilidade na escolha das canções e dos músicos que a acompanham contribuiu ativamente para que “Passagem” pudesse se tornar um álbum homogêneo, com um marcante traço lírico. “Só depois de escolher o repertório, percebi que quase todas as canções falam de amor, embora de várias formas. Esse lirismo todo foi uma surpresa até para mim”, admite.
“Cada uma dessas músicas tem um encanto diferente”, observa Gisella, que não adotou a temática amorosa como critério de seleção. A letra singela da inédita “Simplesmente Simples” (Ladston Nascimento e Antônio Martins) a faz lembrar da ingenuidade de seus 17 anos, do início de sua carreira. Além de seus versos emotivos, a também inédita “Capricho da Sorte” (Sérgio Santos e Murilo Antunes) traz um discreto sabor de bolero. Já o acalanto “Isadora” (Manoel Musa e Antônio Martins), que ganhou um inspirado arranjo de Wagner Tiso, ficou na memória de Gisella por duas décadas: Musa, que compôs essa canção de ninar, era um dos proprietários do Beco da Lua.
Ao gravar três composições que nasceram instrumentais, Gisella provou não ter medo de desafios. Em geral, temas instrumentais incluem saltos melódicos que costumam assustar os cantores. Fernando Brant colaborou com duas letras: a de “Os Cafezais Sem Fim”, vibrante baião de Wagner Tiso, e a do brejeiro “Choro Pra Alice”, de Celso Moreira. “Eu adoro o Wagner desde o tempo de ‘Milagre dos Peixes’. Já a parceria com o Celsinho marcou a memória de quem me viu cantar nos anos 80. Ele é o meu vínculo com aquela época”, ressalta a cantora, que também encomendou a Murilo Antunes, por meio de Celso, a letra para seu inédito choro-canção “Lira do Bem Querer”. A gravação destaca um belo duo vocal de Gisella com o capixaba Zé Renato, em participação especial.
Focando seu disco em compositores mineiros, naturalmente Gisella reservou grande parte do repertório a integrantes do lendário Clube da Esquina. “Acho difícil encontrar alguém em Minas que não tenha sido levada para a música pelo trabalho desse pessoal. Quando eu cantava nos bares, meu repertório tinha muitas músicas do Bituca, do Beto, do Toninho, do Fernando, de todos eles”, lembra a cantora, que escolheu de cara “Canto de Desalento”, uma das primeiras canções compostas por Toninho Horta (com letra de Rubens Téo). “Contos da Lua Vaga” (Beto Guedes e Márcio Borges) chamou a atenção de Gisella pela atualidade de seus versos. “Ela traz uma mensagem de esperança”, aponta a intérprete, que também escolheu a inédita “Maracanã”, um alegre baião de Tavinho Moura. “Foi uma festa gravar essa música. Robertinho Silva deitou e rolou no estúdio”, diverte-se.
Profunda admiradora de Milton Nascimento, Gisella encontrou dificuldades para escolher uma canção do compositor. “Acho tudo dele tão primoroso, que não conseguia nem pensar em gravar”, justifica. Assim, chegou à conclusão que seria melhor representá-lo de forma indireta, cantando “Guardanapos de Papel” – versão de Carlos Sandroni para “Biromes y Servilletas”, do uruguaio Leo Masliah, que Milton gravou em 1997. “Tive receio imenso de gravá-la. Acho a interpretação do Bituca inigualável, mas a letra me pega muito forte quando fala sobre os poetas”, explica a cantora.
As gravações de “Passagem” já estavam praticamente finalizadas, quando Gisella recebeu um inesperado presente. Contagiado ao ouvir algumas faixas do disco, Milton sugeriu a ela que cantasse “... E a Gente Sonhando”, sua segunda composição, gravada somente pelo grupo mineiro Tempo Trio (em versão instrumental) e pela cantora Alaíde Costa. “Foi um gesto de carinho enorme. O Bituca quis fazer parte desse trabalho e isso me emocionou muito”, conta Gisella, que seguiu à risca a sugestão de Milton, gravando-a acompanhada somente pelo piano de Wagner Tiso. Assim, por acaso, nasceu uma das faixas mais bonitas do disco, fecho perfeito para um álbum que prima pela alta qualidade do repertório, dos arranjos e interpretações.
Animada por voltar a cantar profissionalmente e satisfeita por ter conseguido reunir nesse trabalho tantos compositores e instrumentistas, hoje seus amigos, que admira desde a época em que se envolveu com a música, Gisella conclui: “Eu jamais teria feito um disco como esse aos 20 anos de idade”.